
Mãe Preta Filha Preta
Organização: Sued Fernandes
Diagramação e Capa: Sandrinha Alberti
Revisão: Benedita Lopes
Prefácio: Esmeralda Ribeiro
Selo Luiza – Editora Notas de Escurecimento
Mãe Preta, Filha Preta é um livro de múltiplas vozes, memórias e insurgências. Escritoras negras brasileiras apresentam, em prosa e poesia, as complexidades da experiência materna negra no Brasil. A maternidade aparece aqui como portal, mas também como prisão, como escolha, como legado, como ausência. São contos que falam de afeto, racismo, identidade, loucura, ancestralidade e sobrevivência. A seguir, os comentários sobre cada um dos 18 textos que compõem essa obra fundamental:
Na Alquímica “Domingo” de Márcia Adão, a escassez material é transmutada em sustento espiritual através do ritual da oração, transformando a fome cotidiana em uma busca por dignidade e comunhão.
Na Altiva “Macumbeira!” de Andreia Oliveira, a afirmação precoce da fé ancestral é narrada com uma firmeza cortante, mostrando como o orgulho das raízes pode desarmar o preconceito desde a infância.
Na Ambivalente “Bem Me Quer” de Clarice Tatyer, as tensões do colorismo e do pertencimento atravessam o espelho da maternidade, expondo as feridas de um mundo que insiste em questionar o direito à existência.
Na Aterradora “Sufoco” de Caroline Paixão, o medo sistêmico que habita o cotidiano das mães pretas é condensado no som de um telefone.
Na Densa “Monólogo de Segismunda” de Elisabete Nascimento, a voz de uma anciã tece um fio de resistência contra o colonialismo e o apagamento.
Na Devotada “Mãe Preta e Filha Preta” de Maza dya Mpumgo, a inversão de papéis provocada pelo esquecimento materno revela a profundidade do cuidado, onde a filha se torna o porto seguro de quem um dia foi sua bússola.
Na Dignificante “Rosa Ancestral” de Raime Paixão, a maternidade é escrita como uma herança de beleza e altivez, costurando o passado e o futuro através de uma linhagem que se recusa a ser menos do que plena.
Na Dilacerante “Mãe, ainda que a lápis, escreva sua história pra que não se apague de mim” de Sued Fernandes, a escrita dolorosa de uma infância atravessada por violência e silêncio revela o esforço monumental de não permitir que o trauma apague a história vivida.
Na Enigmática “De que cor eram os olhos de Amari?” de Vivi de Paula, o peso do que não é dito preenche o vazio de um quarto, transformando a busca por uma lembrança.
Na Estratégica “Fragmentos de Memórias de uma Infância Negra” de Rachel Quintiliano, o racismo escolar é enfrentado através da fabulação, mostrando como a imaginação é uma ferramenta de sobrevivência.
Na Instintiva “Comadre Ca’dela” de Miriam Vieira, a proteção materna assume contornos de uma fábula visceral.
Na Nutritiva “Jornada Literária” de Claudia Walleska, o livro é apresentado como semente de liberdade plantada por mãos maternas.
Na Observadora “O Roupão Rosa de Dona Juçara” de Inaía Araújo de doce memoria, o cotidiano do trabalho doméstico é desvelado pelo olhar perspicaz de uma criança.
Na Persistente “A Bordar a Vida” de Zannah Lopes, o silêncio do trabalho doméstico é ressignificado através do toque.
Na Revolucionária “Era de Aquário” de Monica Ramos, a desconstrução da maternidade compulsória abre caminho para um renascimento.
Na Sagrada “Crescimento / Credo” de Iraci Sousa Leite, a fé negra é desenhada como um mapa de sobrevivência.
Na Trágica “Negra Trama” de Zainne Lima da Silva, o luto e o instinto de proteção são levados ao limite.
Na Visceral “A Regra” de Ifé Rosa OADQ, o sangue e a ancestralidade florescem em meio à dor, utilizando símbolos oníricos para afirmar a coragem.
Conclusão - Mãe Preta, Filha Preta é uma coletânea de grande relevância estética e política. Seu maior trunfo está na multiplicidade de vozes negras femininas que, com coragem, escrevem a si mesmas fora do espelho branco da tradição literária brasileira. É um livro para ser lido, estudado e levado às escolas, aos clubes de leitura, aos terreiros, aos encontros de mulheres. Um livro que emociona, denuncia, acolhe e, sobretudo, liberta.
Serviço
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